Na autenticidade mora o extraordinário
Casa com cara de casa: a volta do mid-century e como o comportamento humano influencia a arquitetura e o design
Vitória Estrioli
9/1/20253 min ler
Durante anos, o universo do morar foi pautado por imagens perfeitas de um design intocado. Tudo variando entre cinza e branco, ausência de aconchego e personalização que sempre fez parte das nossas vidas: fotografias, coleções, coisas "só nossas". Mas em uma correnteza contrária, vemos o design e a arquitetura trazendo um movimento de resgate: a "casa com cara de casa". Casas, espaços e peças de arte que abraçam a imperfeição, resgatam memórias e celebram a autenticidade. A estética deixa de ser apenas sobre linhas retas e cores neutras e passa a dialogar com o afeto, com o acolhimento e com a identidade de quem habita. E o que isso tem a ver com o comportamento humano?
O zeitgeist: comportamento como motor da estética
O design e a arquitetura sempre foram reflexos diretos do comportamento humano. Se nos anos 2010 o minimalismo e o cinza dominavam como resposta à aceleração digital e à busca por controle, hoje o que vemos é um desejo de calma, pertencimento e nostalgia.
O lar volta a ser o lugar onde a vida real acontece: o almoço em família, o sofá amassado, a estante cheia de livros e memórias. Esse olhar humanizado valoriza não apenas o que é novo, mas o que tem história
O mid-century modern e sua conexão com os tempos atuais
Para entender sua volta, é preciso lembrar sua origem. O mid-century modern surgiu no pós-Segunda Guerra Mundial, quando a sociedade buscava reconstrução, otimismo e acessibilidade.
A produção industrial permitiu móveis mais democráticos, mas o design não abriu mão da elegância. Linhas limpas, formas orgânicas e materiais como madeira, metal e vidro criaram uma estética funcional, prática e ao mesmo tempo acolhedora, perfeita para uma geração que queria deixar para trás o peso da guerra e projetar um futuro mais leve.
O revival contemporâneo
Esse legado encontra hoje um novo contexto: uma geração saturada pela frieza minimalista e sedenta por identidade, especialmente num período pós pandemia. O mid-century retorna atualizado, mas ainda carregando sua essência de funcionalidade e acolhimento.
No cenário atual, nomes como Jaime Hayon têm reinterpretado o modernismo com uma abordagem lúdica e emocional, trazendo curvas, cores vibrantes e um olhar mais humano para o design de mobiliário. Já designers como Ilse Crawford enfatizam o conforto sensorial e a conexão entre espaço e bem-estar, aproximando ainda mais o mid-century da vida real contemporânea.
Arquitetura e design hoje
O resgate do mid-century não é reprodução literal, mas reinterpretação contemporânea. Misturar peças icônicas de Charles & Ray Eames ou Hans Wegner com mobiliário atual é cada vez mais comum, criando ambientes onde a história conversa com o presente. Esse híbrido reforça uma verdade poderosa: o futuro do design não está na novidade a qualquer custo, mas no diálogo entre memória e inovação.
Nossa visão
Tendência não é só estética, é uma resposta do comportamento humano. Compreender esse movimento é essencial para construir narrativas de marca, projetos de arquitetura e experiências que realmente conectem. Seja no varejo, no design de interiores ou na comunicação, nosso olhar está sempre voltado para o que pulsa na cultura. A casa com cara de casa e o revival do mid-century são apenas uma das expressões de um tempo em que autenticidade é o ativo mais valioso. Mais do que um estilo, essa virada cultural sinaliza um desejo coletivo: voltar a viver em espaços que contam nossa história.


Projeto de Paula Neder para Casa Cor
Fotógrafo: Denilson Machado | MCA Estúdio


Fritz Hansen Lounge Chair JH97


Projeto contemporâneo feito por Santoro Arquitetura
Fotografia: Zeh Castedo